Pesquisa mapeia impactos desiguais de enchentes, secas e incêndios entre 2000 e 2022, com municípios menores e populações indígenas arcando com o maior ônus econômico e social.
Este conteúdo foi produzido pela colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.
Desastres climáticos afetam desproporcionalmente as populações vulneráveis da Amazônia brasileira. A conclusão é do estudo Vulnerabilities and compound risks of escalating climate disasters in the Brazilian Amazon (tradução própria: “Vulnerabilidades e riscos compostos do aumento de desastres climáticos na Amazônia brasileira”), publicado em dezembro de 2025 na revista Nature Communications.
A pesquisa analisou dados de 772 municípios entre 2000 e 2022. Entre 2018 e 2022, cerca de 1,8 milhão de pessoas (6,4% da população regional) foram afetadas anualmente por eventos climáticos extremos.
O trabalho foi liderado pela pesquisadora Patrícia F. Pinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), em colaboração com cientistas da FGV Agro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de York, no Reino Unido.
Riscos compostos ajudam a explicar por que os impactos se acumulam
A análise adota a abordagem de riscos compostos, utilizada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que considera de forma integrada três dimensões: a ameaça climática em si, a exposição de pessoas e bens econômicos e a vulnerabilidade social e econômica dos territórios. Essa metodologia permite compreender por que eventos semelhantes produzem impactos muito diferentes entre municípios.
As condições sociais, institucionais e econômicas de cada localidade determinam sua capacidade de prevenir, responder e se recuperar de desastres. Quando essas capacidades são limitadas, os efeitos se acumulam e episódios extremos se tornam crises recorrentes.
Enchentes, secas e incêndios se tornam mais frequentes e intensos
Os desastres se tornaram mais frequentes, intensos e variados nas últimas duas décadas. As enchentes, historicamente predominantes na região, aumentaram cinco vezes entre 2000-2005 e 2018-2022.
Os incêndios florestais cresceram ainda mais, com aumento de dez vezes no mesmo intervalo de tempo. Secas e ondas de calor triplicaram, e os deslizamentos de terra aumentaram cerca de oito vezes.
Além de mais frequentes, os eventos passaram a ocorrer de forma recorrente e sobreposta. Isso reduz o tempo de recuperação entre choques climáticos e amplia os danos acumulados, especialmente em municípios com menor capacidade de resposta.
Perdas econômicas crescem e atingem setores essenciais
As perdas econômicas acompanharam essa escalada. Entre 2000 e 2022, os desastres climáticos causaram aproximadamente US$ 5,78 bilhões em prejuízos na Amazônia brasileira. As perdas médias anuais saltaram 370%, passando de US$ 132,8 milhões (2006-2010) para US$ 634,2 milhões (2018-2022).
Agricultura e pecuária foram os setores mais atingidos, concentrando 60,3% das perdas econômicas (US$ 3,5 bilhões). Infraestrutura pública sofreu danos de US$ 1,1 bilhão, enquanto habitação registrou US$ 470 milhões em prejuízos. Os serviços de saúde, com perdas de US$ 61,5 milhões, evidenciam impactos diretos a sistemas essenciais, sobretudo em municípios com menor capacidade de resposta.
Municípios pequenos e populações indígenas concentram os maiores prejuízos
A distribuição dos impactos revela profundas desigualdades regionais. Municípios com menos de 50 mil habitantes, que concentram 61% da população indígena da Amazônia, perderam em média 9,58% do crescimento econômico entre 2002 e 2020. Cidades com mais de 50 mil habitantes tiveram perdas de 3,8%, enquanto aquelas com mais de 300 mil perderam 1,3%.
O estudo identifica municípios em risco extremo, todos com menos de 20 mil habitantes, concentrados principalmente no Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Tocantins. Nessas localidades, mais da metade da população foi afetada por desastres e as perdas econômicas superaram 50% do crescimento econômico no período analisado.
Além disso, outros 187 municípios, cerca de 24,2% da região, enfrentam alto risco, com uma grande parcela da população exposta a eventos extremos. Em geral, essas localidades apresentam piores indicadores sociais e menor capacidade institucional de prevenção e resposta.
Justiça climática surge como eixo central da adaptação
Além dos prejuízos econômicos, o estudo destaca perdas não econômicas que raramente aparecem nas estatísticas oficiais: impactos nos modos de vida, perda de conhecimentos tradicionais, rompimento de vínculos culturais com o território e abalo do bem-estar emocional.
Um exemplo concreto são os efeitos sobre comunidades ribeirinhas que, durante secas extremas, perdem acesso a rotas fluviais essenciais para transporte, comércio e práticas culturais ligadas aos rios. Muitas dessas perdas são irreversíveis e afetam de forma particular povos indígenas e comunidades tradicionais.
A pesquisa aponta lacunas nos sistemas de monitoramento, que priorizam centros urbanos maiores e não acompanham secas e ondas de calor em municípios pequenos e vulneráveis. A combinação de eventos extremos recorrentes, alta dependência de atividades sensíveis ao clima e fragilidade institucional faz da mudança climática um multiplicador da pobreza na Amazônia.
Diante desse cenário, o estudo defende que políticas de adaptação sejam orientadas por uma perspectiva de justiça climática. Isso inclui integrar conhecimentos indígenas e locais aos processos de avaliação de risco, fortalecer sistemas de monitoramento e alerta precoce e garantir acesso equitativo a recursos de prevenção, recuperação e compensação.
Sem enfrentar os desafios estruturais de adaptação e as desigualdades históricas da Amazônia Brasileira, os riscos associados ao aquecimento global, além da meta de 1,5°C do Acordo de Paris, tendem a se intensificar.