Por que substituir o diesel na Amazônia é mais um desafio geográfico do que tecnológico?

Acompanhe o que a ciência tem revelado sobre a Amazônia com a colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

sistemas fotovoltaicos com baterias de lítio podem reduzir as emissões em até 92% em comunidades isoladas do Amazonas. A disponibilidade de terra firme próxima às cidades, porém, determina onde essa transição é possível.

Este conteúdo foi produzido pela colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

Um estudo publicado na revista Solar Energy Advances em fevereiro de 2026, intitulado Renewable electricity supply in Amazonas: Energy modeling to decarbonize isolated systems (tradução própria: “Suprimento de eletricidade renovável no Amazonas: modelagem energética para descarbonizar sistemas isolados”), mostrou que a substituição do diesel em comunidades amazônicas isoladas é viável do ponto de vista técnico, econômico e logístico.

O caminho, porém, depende de uma variável que raramente entra nos planos: quanta terra firme há perto da cidade. A pesquisa foi conduzida por Meiriele Alvarenga Cumplido e colaboradores.

O paradoxo energético da maior floresta tropical do mundo

Quase 3,1 milhões de brasileiros dependem dos chamados sistemas isolados de energia, conhecidos como SISOL. Esses sistemas não estão conectados ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e operam principalmente com geradores a diesel.

A consequência é dupla. Primeiro, o custo da eletricidade é elevado. Em segundo lugar, as emissões específicas são muito maiores do que as do restante do país. A intensidade de carbono desses sistemas chega a 0,64 tCO₂eq/MWh (tonelada de gás carbônico (CO₂) equivalente por megawatt-hora), enquanto, no sistema interligado nacional, o valor é de 0,04 tCO₂eq/MWh. Ou seja, a eletricidade gerada por sistemas isolados pode emitir até 16 vezes mais.

Vale ressaltar que a unidade “CO₂ equivalente por megawatt-hora” mostra o quanto de gases do efeito estufa — convertidos em equivalente de gás carbônico (CO₂) — foram emitidos à atmosfera para gerar uma certa quantidade de energia elétrica.

Há ainda um problema logístico pouco visível fora da região. Em muitos casos, mais de um litro de diesel é consumido apenas para transportar outro litro até comunidades remotas. O combustível percorre longas distâncias por rios ou por rodovias. Em estiagens severas ou chuvas intensas, há risco do combustível não chegar ao destino.

Diante desse cenário, surge uma questão estratégica: é possível substituir o diesel por recursos renováveis locais, reduzindo as emissões, ao mesmo tempo em que se garante a segurança energética na Amazônia?

Para responder a essa pergunta, o estudo avaliou caminhos de descarbonização em dois municípios do Amazonas: Careiro da Várzea e Rio Preto da Eva. Ambos dependem de geradores a diesel, mas possuem características territoriais distintas.

Como o estudo foi realizado?

A pesquisa utilizou o modelo energético SISOL-AmazonBR, desenvolvido durante o estudo, com base na estrutura do Calliope. Trata-se de uma ferramenta de otimização capaz de simular sistemas elétricos complexos, considerando custos, demanda e variabilidade climática.

O diferencial metodológico está na integração de quatro elementos essenciais:

1. Séries horárias de radiação solar ao longo de mais de 10 anos;

2. Dados reais de demanda elétrica local (plataforma PASI/EPE);

3. Parâmetros técnicos e econômicos coletados em visitas de campo às usinas em outubro de 2024;

4. Restrições de área a partir de classificações de uso e cobertura do solo derivadas do MapBiomas.

Essas restrições de área foram especialmente importantes. Os pesquisadores consideraram que novos sistemas fotovoltaicos (que convertem a luz solar diretamente em energia elétrica por meio de painéis) poderiam ser instalados apenas em áreas já antropizadas. Isso inclui áreas de pastagem ou solo exposto dentro de um raio de 1 quilômetro das áreas urbanas.

A decisão não foi arbitrária. Ela evita a expansão de infraestrutura elétrica sobre áreas florestais e reduz a necessidade de extensas linhas de transmissão. Com isso, o modelo buscou representar condições de planejamento energético sustentável na Amazônia.

A Amazônia tem sol suficiente para a transição energética?

A resposta é sim. Mesmo com alta nebulosidade e grande presença de vapor d’água na atmosfera, a região apresenta irradiação média diária de cerca de 4.640 watt-hora por metro quadrado, valor compatível com áreas subtropicais e economicamente viável para geração solar fotovoltaica.

Portanto, o problema não está na disponibilidade do recurso solar, mas no território disponível para a instalação de painéis solares. O contraste entre os dois municípios analisados ilustra bem esse desafio.

Município de Careiro da Várzea

Careiro da Várzea possui cerca de 20 mil habitantes e uma usina a diesel com capacidade instalada de 8,8 megawatts. O município está localizado em região de várzea, com grande parte do território sujeita a alagamentos periódicos. Como consequência, a partir das premissas adotadas, a área disponível para a instalação de painéis solares nas proximidades da cidade é extremamente limitada.

O modelo mostrou que o potencial técnico local seria de apenas 634 quilowatts, valor insuficiente para substituir a geração atual. Para atender à demanda local exclusivamente com energia solar, incluindo o armazenamento (bateria de lítio ou hidrogênio verde), seria necessário expandir a área disponível entre 20 e 37 vezes. A limitação não é tecnológica. É territorial.

A sessenta quilômetros de Careiro da Várzea, o mesmo problema tem uma resposta totalmente distinta.

Município de Rio Preto da Eva

Rio Preto da Eva apresenta uma situação oposta. Com aproximadamente 35 mil habitantes e capacidade instalada de geração a diesel de 14 megawatts, o município está localizado em área de terra firme e possui a maior disponibilidade de pastagens próximas à zona urbana.

Nesse contexto, o estudo mostrou que os sistemas renováveis podem substituir integralmente o diesel. O resultado mais relevante ocorre na configuração em que a energia solar é combinada com baterias de lítio, sem restrição severa de área. Nesse caso:

● A capacidade solar necessária seria de 65 megawatts;

● O armazenamento exigiria 330 megawatt-hora em baterias;

● O custo da eletricidade cairia 13% em relação à configuração diesel de referência (de US$ 0,39 para US$ 0,34 por kWh);

● As emissões seriam reduzidas em até 92%.

Ou seja, a descarbonização completa é tecnicamente possível e economicamente competitiva, mas apenas onde há espaço disponível.

O papel decisivo do armazenamento de energia

A geração de energia solar não funciona isoladamente. Como a produção ocorre apenas durante o dia, sistemas fotovoltaicos precisam de armazenamento para garantir a disponibilidade contínua de energia elétrica. O estudo comparou duas soluções principais: baterias de lítio e hidrogênio verde.

Baterias de lítio dominam o ciclo diário: rápidas, eficientes, ideais para cobrir a noite. Já o hidrogênio verde domina a longo prazo, pois é capaz de armazenar energia por semanas. O hidrogênio verde funciona como uma reserva estratégica. Painéis solares produzem eletricidade, que, por eletrólise, separa as moléculas de água em hidrogênio e oxigênio. Esse gás fica armazenado e, quando o sol some por dias, é reconvertido em energia pela célula a combustível. É caro de montar, mas barato de expandir. E isso faz toda a diferença quando o espaço se torna mais restrito.

Quando o espaço diminui, o custo dispara

Outro resultado relevante da pesquisa é observado quando a área disponível para a instalação de painéis solares é limitada. Nesse contexto, a restrição severa de área imposta no estudo corresponde à disponibilidade mínima necessária para atender integralmente à demanda local em cada configuração analisada.

Com essa restrição, o sistema precisa compensar a falta de geração por meio de maior capacidade de armazenamento. Isso aumenta significativamente o custo da eletricidade.

Em Rio Preto da Eva, por exemplo, o custo do sistema baseado em baterias aumentou em mais de 120%, atingindo US$ 0,75/kWh. Já o sistema a hidrogênio verde apresentou um custo de US$ 0,72/kWh, tornando-se ligeiramente mais competitivo.

A inversão não revela uma vantagem absoluta do hidrogênio verde. Revela algo mais preciso: expandir tanques de armazenamento de hidrogênio verde tem custo marginal menor do que o de expandir bancos de baterias de lítio. Quando o espaço para geração de energia é limitado e o sistema precisa armazená-la por mais tempo, o hidrogênio verde escala melhor.

Mais do que clima, trata-se de segurança energética

A substituição do diesel por sistemas renováveis traz benefícios que vão além da redução de emissões. Isso porque a dependência logística do combustível torna comunidades inteiras vulneráveis a eventos extremos:

● Secas severas podem interromper o transporte fluvial;

● Chuvas intensas podem interromper o transporte por estradas;

● Oscilações de preço afetam diretamente o custo da eletricidade;

● Quando a energia depende de uma logística complexa, qualquer interrupção vira crise.

A geração local de energia renovável reduz essa vulnerabilidade. Durante muito tempo, o debate energético na Amazônia foi tratado como um problema de tecnologia, mas este estudo mostra que também é um problema de território.

O futuro da energia na Amazônia começa no planejamento do território

O estudo não traz uma promessa fácil, mas mostra que a descarbonização é viável onde três condições se encontram:

1. Planejamento territorial integrado;

2. Escolha adequada das tecnologias de armazenamento;

3. Políticas públicas adaptadas às realidades de cada município.

Em áreas de terra firme, como Rio Preto da Eva, sistemas fotovoltaicos com baterias de lítio podem substituir o diesel, reduzindo simultaneamente custos e emissões. Já em áreas de várzea, como Careiro da Várzea, soluções alternativas ainda precisam ser avaliadas, como painéis solares flutuantes, painéis solares em telhados e sistemas que integram a geração de energia à produção agrícola.

O estudo ainda realça a dimensão social. Sistemas baseados na geração de energia solar, baterias de lítio e hidrogênio verde exigem capacidade técnica local para a instalação, o monitoramento e a manutenção. Se essa capacidade não for desenvolvida nas próprias comunidades, o risco é substituir a dependência do diesel pela dependência de empresas externas.

Na maior floresta tropical do planeta, o verdadeiro limite da transição energética não está no céu. Está no chão.

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