Associação Rede de Sementes do Xingu

Apresentamos uma vitrine de projetos que fazem a diferença na Amazônia Brasileira. Conheça a Associação Rede de Sementes do Xingu.

A experiência da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) mostra que a produção de sementes florestais para a restauração de ecossistemas degradados pode se constituir como um caminho efetivo para valorização da biodiversidade com inclusão socioeconômica.

Mais de 560 coletores de sementes nativas para restauração ecológica — e cuja maioria (65%) são mulheres — compõem a força de trabalho da Rede de Sementes do Xingu. Uma associação não-governamental sem fins lucrativos, estruturada em uma rede de diversidade horizontal formada por povos indígenas, agricultores familiares e moradores de cidades localizadas em territórios da Amazônia e do Cerrado no estado de Mato Grosso, Centro-Oeste do Brasil.

A forma de funcionamento da Rede promove a articulação de demandas e ofertas para a restauração. Para isso, os coletores de sementes anualmente planejam seu potencial de produção, enquanto a central administrativa estabelece contratos e parcerias com compradores. A relação entre a oferta de sementes dos coletores e a demanda do mercado estabelece a produção anual.

Assim, a semente tem a sua comercialização assegurada, retornando como renda para os coletores. Esse modelo se consolidou como um exemplo de negócio social de base florestal na Amazônia brasileira, com promoção de conhecimentos locais, conservação da biodiversidade, aprimoramento da qualidade de vida familiar e fortalecimento das relações de cooperação e da organização social dos grupos familiares e comunitários de coletores de sementes.

Em 2022, a Rede de Sementes do Xingu celebra seus 15 anos de atuação nas bacias hidrográficas dos rios Xingu, Araguaia e Teles Pires, coletando mais de 292 toneladas de sementes, semeadas diretamente no solo de 7,4 mil hectares de áreas degradadas. Um volume de sementes capaz de consolidar cerca de 25 milhões de árvores das florestas do futuro. Ao longo de sua história foram repassados R$ 5,2 milhões aos coletores de sementes.

Mais de 220 espécies de plantas nativas já nasceram a partir da inovadora técnica da muvuca, da qual a ARSX é adepta: uma mistura de sementes nativas com sementes de adubação verde, que são semeadas diretamente na área destinada à restauração.

Lilla Jessica Brokaw / ISA

A muvuca é mais eficiente e econômica do que outros métodos convencionais de restauração, como o plantio por mudas. As sementes que compõem 80 quilos de muvuca contêm uma carga genética suficiente para germinar um hectare de floresta jovem, formada por mais de 2,5 mil plantas nativas de diversas espécies.

Assim, a Rede de Sementes do Xingu caminha na construção constante do Bem Viver, respeitando todas as formas de vida, com garantia de direitos relacionados à sociobiodiversidade de todos os envolvidos, sejam eles humanos ou não-humanos, seres vivos ou não-vivos, de composições materiais ou espirituais.

A história da formação da Rede de Sementes do Xingu

Na região das cabeceiras do Xingu, estado de Mato Grosso, o histórico recente de uso e ocupação do território representou elevadas taxas de desmatamento, especialmente em áreas de nascentes e matas ciliares. Diante das recentes transformações de uso e ocupação das cabeceiras do rio Xingu, as comunidades do Território Indígena do Xingu (TIX) passaram a vivenciar as consequências do desmatamento, principalmente na qualidade e quantidade de água.

Essa realidade motivou lideranças do TIX a reivindicar de parceiros locais o planejamento territorial para a conservação de um recurso essencial para todos, a água. Com essa demanda, a partir de 2004 passou a ser articulada a campanha Y Ikatu Xingu.

No âmbito da campanha, difundiu-se na região a técnica da restauração florestal por meio da semeadura direta com plantios mecanizados, a custos acessíveis para os produtores rurais. A implementação dessa técnica gerou uma demanda concreta por sementes para plantios regionais, que levou à estruturação, em 2007, da Rede de Sementes do Xingu, um sistema de produção comunitária de sementes florestais que constituiu um marco da união de diferentes atores sociais da região em prol de um objetivo comum.

Em 2014, a Rede de Sementes do Xingu deu um grande passo em direção à sua autonomia e tornou-se uma associação sem fins lucrativos (Associação Rede de Sementes do Xingu — ARSX). Como associação, a Rede pode comercializar sementes, registrar coletores em órgãos oficiais, inscrever-se em projetos de apoio às atividades e efetuar transações financeiras, sem depender de outras organizações.

Lilla Jessica Brokaw / ISA

Hoje, mais de 60% da força de trabalho da Rede de Sementes do Xingu é formada por pessoas indígenas. Elas e eles vivem em três territórios: Marãiwatsédé, Pimentel Barbosa e Xingu. Há coletoras e coletores de sementes nativas em aldeias dos povos indígenas Ikpeng, Kawaiwete, Matipu, Xavante, Waujá e Yudjá.

Os agricultores familiares, que vivem em 16 assentamentos e representam cerca de 32% da força de trabalho, estão localizados em diversos pontos no entorno do Território Indígena do Xingu, e também trabalham pela recuperação das nascentes em suas terras — em especial, as nascentes da bacia do rio Xingu.

Moradores de diferentes centros urbanos de Mato Grosso compõem 8% do total de coletores. São sensíveis às causas ambientais, e assim como os outros, dotados de conhecimento para coletar sementes das árvores matrizes urbanas e em áreas de preservação no entorno dos municípios.

Os desafios da Rede de Sementes do Xingu

A área de atuação da ARSX compreende as bacias dos rios Xingu, Araguaia e Teles Pires, totalizando 319 mil km². Um dos maiores desafios internos da Rede é trabalhar com diferentes atores, localizados em regiões distantes umas das outras, e muitas com acesso remoto.

Entre os desafios externos, estão ameaças aos territórios habitados pelos coletores, como grilagem de terras, desmatamento e queimadas, falta de fiscalização, construção de grandes obras, mineração e a emergência climática.

Essas atividades estão direta ou indiretamente relacionadas com a morte de espécies matrizes (árvores, ervas e arbustos selecionados para a coleta de sementes nativas) que viviam nas áreas de coleta dos grupos coletores da Rede de Sementes do Xingu.

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