A Amazônia e as oportunidades institucionais

Acompanhe importantes debates sobre a economia da Amazônia trazidos pelo Dr. Augusto Rocha.

Este conteúdo foi produzido pelo colunista Augusto Rocha, professor associado da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e diretor adjunto da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas

Pierre Bordieu, sociólogo francês morto em 2002, discutiu em seus textos uma teoria sobre os campos sociais. Ele propôs que a sociedade é composta por diversos campos, como educação, arte, religião, dentre outros. Cada campo possui suas próprias regras, estruturas e formas de capital. Bourdieu argumentava que os indivíduos não apenas habitam esses campos, mas são moldados por eles, influenciando suas percepções, ações e oportunidades.

Estes pilares da sociologia contemporânea ajudam a explicar uma das maiores fontes de desperdício que temos na Amazônia: a falta de interação institucional entre os diversos poderes constituídos. Os governos Estaduais produzem poucas interações com o Governo Federal – muito menos do que deveria. É como se cada um dos órgãos atuasse de maneira isolada e isso é super ineficiente. De sua parte, os órgãos executivos atuam distantes dos próprios corpos de cientistas.

Na questão da seca das “hidrovias” da Amazônia em 2023, apenas as indústrias do Polo Industrial de Manaus desperdiçaram mais de R$ 1,4 bilhões em custos extras. Entretanto, existe um grupo de cientistas da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que estudam clima e meteorologia da região faz um tempo. O laboratório está subfinanciado e poderia produzir muito mais dados sobre esta condição para o futuro. Eles possuem pesquisadores, modelos matemáticos e software que conseguem prever com precisão altíssima o que acontecerá em três meses, mas não possuem todos os recursos computacionais necessários para fazer isso em toda a região.

O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) possui réguas e medições em todas as bacias hidrográficas nacionais, mas poderia, a um custo relativamente baixo, possuir mais 200 réguas e aumentar em muito a sua acuracidade nas métricas e ampliar suas previsões. Os dois laboratórios já atuam em conjunto, pois se veem como um corpo científico. Ao mesmo tempo, pesquisadores da Geomorfologia dos rios, da Universidade Federal do Amazonas, possuem alta compreensão sobre o que pode ser feito e o que afeta os rios da Amazônia ou dos Sistemas de Transportes. Todo este conjunto de profissionais já interage.

O que falta então? Os campos políticos e executivos, federal e estaduais, reconhecerem os demais campos científicos, federal e estadual, além dos relatórios. Falta uma interação produtiva e institucional no sentido destes atores aqui mencionados produzirem ações conjuntas e potencializadoras do resultado. Muitos recursos são desperdiçados e, ao final, a sociedade perde. Não dá para entender de Amazônia a distância. Não dá para compreender o clima sem medições de campo.

Muitos recursos são desperdiçados. A grandeza de investimentos adicionais necessários é pequena. Além de pouco ou quase nada ser investido na região, os resultados não são potencializados por conta do espraiamento dos já escassos recursos em uma ação pouco coordenada e desconectada de um alinhamento sistêmico com trocas. Enquanto a vida da floresta é abundante justamente pela intensa movimentação da vida entre as espécies, os brasileiros insistem em um modo de operação institucional isolado e dissociado. Precisamos reformar o modo de operar da sociedade, ampliando as interações institucionais. Enquanto isso não acontece perdemos bilhões de oportunidades.

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