A potência dos rios da Amazônia

Acompanhe importantes debates sobre a economia da Amazônia trazidos pelo Dr. Augusto Rocha.

Este conteúdo foi produzido pelo colunista Augusto Rocha, professor associado da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e diretor adjunto da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas

Os rios da Amazônia são uma potência, sejam os voadores ou os que correm sobre o solo. A vazão na foz do Amazonas em 24h, segundo relatos do DNIT, corresponde ao somatório de todas as hidrovias europeias ao longo de um ano. Se fossem hidrovias, seriam ainda mais importantes do que já são. Tanto o próprio DNIT, como outras instituições públicas, em seus mapas, têm os chamado de hidrovias, mas a rigor quase nenhum deles é. Faltam sinalizações, documentação atualizada e mais detalhada, manutenção e garantia dos calados durante todo o ano, mais portos, retroportos e muitas outras deficiências. Claro que há um reconhecimento de todo o esforço empreendido no contexto de isolamento da região. Mas há muito mais o que fazer.

Ainda assim, o Brasil é o maior produtor de soja do mundo e a maior parte desta soja exportada sai pelo chamado Arco Norte e muito mais poderia sair por aqui. Por exemplo, uma dissertação de Mestrado da UFAM de Bruno Duarte Oliveira analisou que os contêineres que trazem insumos para o Polo Industrial de Manaus, em navios de longo curso (com origem e destino no exterior), voltam em sua maior parte vazios. Uma boa parte deles poderia voltar com soja ou outros produtos, nos mesmos contêineres. Há outros estudos, como o de Ramesh Mohan Thadani, que apontam que a Soja não Geneticamente Modificada poderia ocupar estes contêineres e alcançar melhores preços no mercado global.

Um terceiro estudo, de Américo Matsuo Minori, demonstrou que há uma grande ineficiência nos portos da região e que há muito o que ser feito para haver portos e terminais portuários competitivos, mesmo com todo o esforço que já foi feito, tanto pela iniciativa privada, quanto pelo setor público. Acontece que para reduzir as desigualdades de uma região tão grande e abandonada, é necessário muito investimento, ao longo de muitos anos e isso é longe do que acontece. Não há na Amazônia problemas de distância, há uma carência secular de investimentos.

Se o olhar for ainda mais nacional ou internacional, existem oportunidades de interligação da Bacia do Prata com a Bacia do Amazonas? É necessária uma pesquisa para entender melhor a questão. Será que existe potencial para construir um ou mais canais fazendo esta conexão? Como integrar o Rio Paraguai ao Rio Guaporé? Como a melhoria dos canais desses rios e entre eles aumentaria a navegação de interior no país, integrando muito mais a América do Sul? Estudos que analisem a viabilidade dessas intervenções, a melhor forma de executá-la, do ponto de vista da engenharia, as questões referentes ao meio-ambiente, melhores embarcações que apresentem competitividade e impacto econômico aos países envolvidos possui um grande potencial.

Entretanto, faltam orçamentos públicos para alocação em projetos de infraestrutura sustentável para aumentar a competitividade da Amazônia. Outro estudo já feito, de Aimberê Freitas, propôs ferrovia para ligar Manaus a Boa Vista e de lá Georgetown. Isso daria uma fácil conexão com os portos do Caribe. Há tantas oportunidades para transformar a Amazônia em uma potência econômica, que nos perdemos e nada fazemos de importante para esta transformação. Hoje começam a acontecer restrições de navegabilidade no Rio Amazonas, por conta da seca, do aquecimento global e de tantas questões exaustivamente debatidas. Por conta de um pequeno trecho de 4km, parte das embarcações que fazem de Manaus um dos principais destinos de contêineres do Brasil, começará a ter restrições. O que fazer para resolver? Não se sabe. Alguma dragagem seria útil, mas não o suficiente e talvez caro em excesso.

A problemática da Amazônia é esta: poucos estudos e poucas ações, com uma única certeza: enormes oportunidades. Entretanto, pergunto-me: será que são realmente oportunidades? Afinal, nem estudamos, nem sabemos o que fazer, mas continuamos pobres e destruindo-a, pouco a pouco, sem gerar recursos de porte para o país. Não haverá rota de desenvolvimento para o Brasil sem aproveitar as potencialidades da Amazônia. É hora de trocar de sentimento: além das oportunidades, precisamos entendê-las e explorá-las com sabedoria, aposentando a motosserra e colocando a ciência e a tecnologia para direcionar os recursos voltados para uma infraestrutura sustentável.

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