A estrutura que sustenta a biodiversidade amazônica

Acompanhe o que a ciência tem revelado sobre a Amazônia com a colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

Cientistas demonstram que a forma física da floresta, do chão ao topo das árvores, é um dos principais fatores que explicam a diversidade de espécies na Amazônia.

Este conteúdo foi produzido pela colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

São milhares de espécies de plantas e animais que habitam a floresta amazônica. Mas o que permite que tantas formas de vida convivam no mesmo território?

Um estudo conduzido pela cientista brasileira Marcelle São Pedro e colaboradores, traz uma resposta clara: a estrutura da floresta é tão importante quanto o solo e a água para definir onde cada espécie vive.

O artigo, intitulado Forest structure predicts plant and animal species diversity and composition changes in an Amazonian forest (tradução própria: “A estrutura da floresta prediz diversidade de espécies de plantas e animais e mudanças na composição da floresta amazônica”), foi publicado em setembro de 2025 no periódico científico Biodiversity and Conservation.

Onde e como o estudo foi realizado

Em geral, os estudos sobre biodiversidade consideram aspectos como a fertilidade do solo, a profundidade do lençol freático ou a proximidade de rios. Entretanto, a cientista Marcelle São Pedro e colaboradores foram mais longe: mapearam a arquitetura bidimensional da floresta.

O estudo foi realizado em 23 parcelas permanentes na Reserva Ducke, próxima a Manaus, cada uma com 250 metros de comprimento. Nessas áreas, foram analisados nove grupos biológicos, incluindo plantas herbáceas (sub-bosque), palmeiras, árvores de diferentes tamanhos, aves, anfíbios (sapos, pererecas e rãs), lagartos e morcegos frugívoros (que comem frutas).

Para medir a organização espacial da floresta, os pesquisadores utilizaram uma tecnologia chamada LiDAR. O sistema emite pulsos de laser que atravessam a vegetação e retornam ao sensor, permitindo medir a altura das árvores, a quantidade de folhas em cada camada, a distribuição vertical da vegetação e a forma como a luz penetra na floresta. É como um mapeamento a laser que revela a arquitetura invisível da floresta, do solo ao dossel das árvores.

Com esses dados, a equipe realizou análises estatísticas para separar os efeitos da estrutura da floresta dos efeitos de fatores ambientais tradicionais, como solo e disponibilidade de água. Assim, foi possível estimar quanto cada elemento contribui para explicar a diversidade e a composição das espécies.

O que a estrutura da floresta nos revela sobre samambaias, árvores e palmeiras

O estudo mostrou que florestas mais altas e com maior volume de vegetação abrigam maior diversidade de árvores, especialmente aquelas com mais de 10 centímetros de diâmetro. Nessas áreas, a organização vertical das folhas cria uma variedade maior de condições de luz, favorecendo a coexistência de diferentes espécies.

As características estruturais explicaram entre 30% e 42% da variação na diversidade de árvores e palmeiras.

Quando a análise incluiu árvores menores, com a partir de 1 centímetro de diâmetro, o volume total de folhas e a altura em que metade da luz solar consegue alcançar explicaram até 62% das diferenças na composição das espécies. Pequenas mudanças na arquitetura da floresta geram microambientes distintos, que favorecem diferentes grupos de plantas.

No caso das palmeiras, o padrão foi diferente. A diversidade foi maior em áreas onde as folhas se concentram nos estratos inferiores da floresta. Essa configuração cria uma combinação específica de sombra e luminosidade no sub-bosque, permitindo que várias espécies ocupem nichos próprios relacionados à disponibilidade de luz.

A distribuição vertical da vegetação ajudou a explicar diferenças na composição de samambaias e licófitas, plantas típicas do sub-bosque que dependem de ambientes sombreados e úmidos. A forma como a luz atravessa a floresta determina onde essas espécies conseguem se estabelecer.

Animais também respondem à forma da floresta

Para aves do sub-bosque, a forma como a vegetação se distribui em altura explicou 53% das variações na composição das espécies entre áreas. Florestas com vegetação bem distribuída ao longo do perfil vertical abrigam comunidades de aves diferentes daquelas onde a vegetação se concentra em poucas camadas.

Até mesmo anfíbios terrestres, como sapos, rãs e pererecas, mostraram sensibilidade à configuração florestal. A altura média das árvores explicou 36% das diferenças na composição dessas espécies. Florestas mais altas criam microclimas específicos de temperatura e umidade no chão da floresta, condições essenciais para esses animais.

Os morcegos frugívoros apresentaram um padrão distinto. Para esse grupo, a arquitetura da floresta foi menos relevante. Segundo outros estudos, a distribuição das espécies esteve mais associada à distância de riachos, à altitude do terreno e à presença de plantas frutíferas.

Já para os lagartos, o estudo não encontrou relações evidentes com as características estruturais analisadas, indicando que outros fatores ambientais ou biológicos podem ser mais importantes.

A arquitetura da floresta tem efeito próprio

Um dos avanços centrais do estudo foi demonstrar que a estrutura da floresta exerce influência própria, independente de fatores ambientais tradicionais.

Para muitas plantas, solo e água continuam sendo os principais fatores que explicam quais espécies dominam cada área. No entanto, a organização espacial da floresta ajudou a esclarecer variações mais sutis na composição das espécies, especialmente para árvores, samambaias, aves e anfíbios. Essas variações ocorrem mesmo em locais com condições ambientais semelhantes.

Em alguns casos, os efeitos da estrutura e do ambiente se sobrepõem. Para árvores de grande porte, solo e arquitetura florestal atuam de forma interdependente, com sobreposição de explicação que chegou a 32%.

Esses resultados reforçam que a floresta não é apenas um conjunto de árvores sobre um tipo de solo. Trata-se de um ambiente tridimensional, no qual luz, umidade e abrigo variam conforme a organização da vegetação.

Essas descobertas têm consequências diretas para a proteção da Amazônia

Se a estrutura da floresta ajuda a identificar onde e como a biodiversidade se organiza, tecnologias como o LiDAR podem apoiar o monitoramento de grandes áreas, indicar regiões mais sensíveis a alterações e auxiliar decisões de conservação quando o levantamento direto de espécies é difícil ou inviável.

O estudo mostra que diferentes grupos biológicos respondem a diferentes aspectos da estrutura florestal. Altura e volume da vegetação são decisivos para árvores. A distribuição vertical das folhas é fundamental para aves e samambaias. A altura média das árvores influencia os anfíbios. Compreender essas relações é essencial para desenvolver estratégias de conservação mais eficazes.

Preservar a Amazônia, portanto, não significa apenas evitar o desmatamento, mas também manter a estrutura que sustenta a vida em múltiplas escalas e permite a coexistência de milhares de espécies na maior floresta tropical do planeta.

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