Mudanças ambientais ameaçam a subsistência das comunidades tradicionais na Amazônia

Acompanhe o que a ciência tem revelado sobre a Amazônia com a colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

Mais de 1 bilhão de árvores e palmeiras nativas são perdidas a cada dois anos, causando perdas econômicas de até US$ 17 bilhões.

Este conteúdo foi produzido pela colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

As mudanças ambientais causadas por atividades humanas alteram o ciclo da água, energia e nutrientes na região amazônica. Assim, várias espécies de plantas sofrem alterações biológicas e isso impacta a subsistência de comunidades tradicionais. Afinal, grande parte dessas plantas são fonte de alimento e renda para essas comunidades.

Portanto, compreender a relação que existe entre as mudanças ambientais e as plantas é importante para criar formas estratégicas de impulsionar o sistema agroflorestal – sistema de produção que concilia agricultura ou pastagem com espécies florestais nativas – focando em pessoas, negócios e restauração florestal.

Pensando nisso, o pesquisador Diego Oliveira Brandão, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e colaboradores, desenvolveram uma pesquisa para descrever as mudanças ambientais na Amazônia e avaliar por que os meios de subsistência das comunidades tradicionais estão cada vez mais ameaçados.

Para isso, os pesquisadores fizeram uma revisão de literatura – análise de vários estudos científicos sobre o tema – para avaliar os efeitos do desmatamento, fragmentação florestal, retirada da madeira, incêndio florestal, seca, aquecimento global e a possível “savanização” da Amazônia na produtividade e distribuição das plantas pela floresta. Entenda “savanização” como transformação da floresta amazônica em savana (cerrado, no Brasil), mas com biodiversidade mais pobre.

O estudo foi publicado na revista científica Forests, em março de 2022, com o título “The Effects of Environmental Changes on Plant Species and Forest Dependent Communities in the Amazon Region”.

Os principais resultados encontrados na pesquisa foram:

1) O desmatamento reduz a produção de sementes e frutas e alterou a composição das plantas.

2) A fragmentação florestal reduz a diversidade e densidade de sementes e frutos.

3) A retirada de madeira reduz a densidade da madeira e a disponibilidade de recursos não-madeireiros.

4) Incêndios florestais destroem árvores e afetam a composição das plantas.

5) Secas aumentam a mortalidade das plantas.

6) O aquecimento global leva a mudanças na vegetação.

7) As mudanças na vegetação são semelhantes ao cerrado degradado.

O desmatamento e o aquecimento global são as maiores ameaças à importância econômica das plantas na região amazônica, tanto no curto quanto no longo prazo. Isso resultará na diminuição das oportunidades econômicas para as comunidades tradicionais, bem como na perda acelerada da biodiversidade.

Espécies nativas menos exploradas economicamente, como Cecropia spp. e Vismia spp., assim como espécies típicas do cerrado que ocorrem em partes da região amazônica, são mais bem adaptadas a secas e incêndios florestais.

A mudança na composição de espécies vegetais em áreas degradadas ocorre principalmente nas regiões sul e leste da Amazônia brasileira, onde o clima local é mais seco e a estação seca é mais longa, devido aos incêndios florestais mais frequentes. Assim, as populações de espécies menos exploradas economicamente e de cerrado podem aumentar nessas regiões.

A diminuição da importância econômica das plantas ocorre em diferentes escalas de tempos. Mais de 1 bilhão de árvores e palmeiras nativas são perdidas a cada dois anos na floresta amazônica, causando perdas econômicas estimadas de até 17 bilhões de dólares.

A perda de biodiversidade pode ser abrupta e temporária ou persistente por mais de 20 anos. A falta de planos eficientes para amenizar e adaptar às mudanças ambientais pode levar à diminuição contínua da importância econômica das espécies de plantas nativas. As espécies de plantas nativas que estão aumentando sua população estão mais adaptadas às mudanças ambientais e podem ser empregadas na restauração florestal.

Finalmente, para manter a importância social e econômica da floresta, devem ser plantadas espécies de plantas nativas com valor econômico em declínio, pois os estudos revisados ​​indicam que suas populações estão diminuindo e não há esforços para fazer a restauração florestal.

Referência

Brandão, D.O.; Barata, L.E.S.; Nobre, C.A. The Effects of Environmental Changes on Plant Species and Forest Dependent Communities in the Amazon Region. Forests 2022, 13, 466.

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