A Amazônia que produz energia hidrelétrica, mas não se beneficia dela

Acompanhe o que a ciência tem revelado sobre a Amazônia com a colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

Ao analisar 149 sistemas isolados, estudo revela como a dependência do óleo diesel encarece, polui e limita o acesso à eletricidade na Amazônia.

Este conteúdo foi produzido pela colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

Enquanto grandes hidrelétricas instaladas na Amazônia enviam energia para o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil, parte da população da própria região depende de geradores a óleo diesel para ter acesso à eletricidade.

O estudo Electricity supply in isolated systems in the Brazilian Amazon: Challenges and opportunities (tradução própria: “Fornecimento de eletricidade em sistemas isolados na Amazônia brasileira: desafios e oportunidades”), publicado em dezembro de 2025 na revista Energy for Sustainable Development, analisa esse cenário a partir de dados técnicos, socioeconômicos e observações de campo. A pesquisa é liderada por Meiriele Alvarenga Cumplido, doutora pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com colaborações.

Eletricidade cara e poluente

O estudo analisou 149 sistemas isolados de geração e distribuição de eletricidade, oficialmente chamados de Sistemas Isolados (SISOL), distribuídos pela Amazônia brasileira. Esses sistemas variam enormemente de escala. O menor deles atende 15 pessoas, enquanto o maior abastece Cruzeiro do Sul, município do Acre, com cerca de 90 mil habitantes.

Apesar de representarem menos de 1% da eletricidade gerada no Brasil, os sistemas isolados são responsáveis por cerca de 10% das emissões de gases de efeito estufa do setor elétrico nacional. A explicação está na composição da matriz energética.

Aproximadamente 80% da eletricidade dos sistemas isolados é gerada a partir da queima de óleo diesel, enquanto cerca de 15% vêm do gás natural. Biomassa, biodiesel, pequenas centrais hidrelétricas e energia solar fotovoltaica completam a matriz, com participação ainda reduzida.

Essa dependência de combustíveis fósseis resulta em um fator de emissão cerca de 16 vezes maior do que o observado no Sistema Interligado Nacional (SIN). Em 2023, os sistemas isolados lançaram 2,43 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera, um volume desproporcional à quantidade de energia gerada.

Três custos que encarecem a conta de luz

Além do impacto ambiental, o estudo detalha os custos que permeiam esse modelo energético. O primeiro é o custo real, que inclui o combustível e sua logística. Para abastecer as usinas, o óleo diesel percorre longas distâncias por rios e estradas, acessos que são impactados e variam nos períodos de cheia e de seca.

Em Careiro da Várzea, no Amazonas, a usina consome cerca de 350 mil litros de óleo diesel por mês. Já em Rio Preto da Eva, o consumo diário chega a 55 mil litros, o equivalente a 1,65 milhão de litros por mês. Esses custos são cobertos pela Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), um subsídio pago por todos os consumidores do sistema elétrico brasileiro.

O segundo é o que se chamou de custo contratual. Muitos sistemas operam sob contratos de longo prazo, por vezes superdimensionados, que garantem pagamento mesmo quando a usina deixa de gerar eletricidade. O estudo cita o caso de Iranduba, município do Amazonas já conectado ao sistema interligado, mas que continua recebendo pagamentos contratuais.
O terceiro é o que se nomeou como custo cultural, associado à inadimplência e ao furto de energia, tecnicamente chamado de perda não técnica. Em Rio Preto da Eva, município do Amazonas, essas perdas alcançam 48%, acima da média regional que é de 40%.
O estudo aponta que o maior devedor costuma ser o próprio setor público, especialmente as prefeituras. A logística complexa dificulta o desligamento de inadimplentes e favorece reconexões irregulares.

Nesse contexto, o estudo ressalta que, embora estratégias emergenciais sejam necessárias em muitos casos, elas não substituem políticas estruturantes voltadas à redução das vulnerabilidades de longo prazo e ao fortalecimento da adaptação sustentável das comunidades.

O que as visitas de campo revelaram

Para além dos dados, a equipe realizou visitas técnicas, em outubro de 2024, a duas usinas termelétricas movidas a óleo diesel no Amazonas: Careiro da Várzea e Rio Preto da Eva. Essas visitas permitiram observar aspectos que não aparecem nos dados oficiais.

Em Careiro da Várzea, acessível apenas por barco a partir de Manaus, a usina, inaugurada em 2019, opera com 17 geradores, totalizando 8,8 megawatts de capacidade instalada. Cada gerador funciona cerca de oito horas por dia, acompanhando picos de demanda que ocorrem principalmente entre o meio-dia e o início da tarde e novamente à noite.

Em Rio Preto da Eva, acessível por estrada, a usina funciona desde 2004 com 28 geradores e 14 megawatts de capacidade instalada. A demanda varia entre sete e doze megawatts, e a baixa capacidade de armazenamento exige reabastecimento diário. A ausência de geradores de reserva e o funcionamento quase contínuo dos equipamentos aumentam a frequência de falhas operacionais.

Durante a seca extrema de 2024, os pesquisadores não conseguiram visitar usinas a gás natural devido ao baixo nível dos rios, o que evidencia a dependência do transporte fluvial. Ainda assim, o abastecimento dessas usinas não foi interrompido, pois o gás natural é transportado por gasoduto.

Ter luz não garante desenvolvimento

O estudo demonstra que o acesso à eletricidade, por si só, não assegura o desenvolvimento socioeconômico. Para investigar essa relação, os autores cruzaram dados energéticos com indicadores sociais e econômicos ao longo do período entre 1991 e 2021, incluindo renda, escolaridade e expectativa de vida.

A análise mostra que, apesar do avanço no acesso à eletricidade ao longo das décadas, as localidades atendidas por sistemas isolados mantiveram indicadores socioeconômicos mais baixos do que as integradas ao Sistema Interligado Nacional. Isso ocorre tanto na comparação entre estados quanto na própria região amazônica.

No estado do Amazonas, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de aproximadamente 0,7, valor considerado alto. No entanto, quando esse índice leva em conta as desigualdades entre diferentes grupos da população, o chamado Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado à Desigualdade cai para 0,532. Essa queda revela que, apesar da média estadual ser alta, existem grandes assimetrias na distribuição de renda, educação e saúde entre os habitantes. As localidades atendidas por sistemas isolados tendem a apresentar indicadores ainda mais baixos do que a média estadual.

O paradoxo da eletricidade na Amazônia

A Região Norte concentra quase 20% da capacidade de geração elétrica do Brasil. Em hidrelétricas, a participação chega a 30%, a maior entre todas as regiões. Belo Monte, Jirau e Santo Antônio têm linhas de transmissão que as conectam diretamente ao Sudeste e ao Centro-Oeste.

Essa energia produzida na Amazônia não necessariamente beneficia a população local, que ainda sofre com os impactos socioambientais da construção desses projetos. Enquanto isso, cerca de 990 mil pessoas na região, 3,5% da população, segue sem acesso à eletricidade. São grupos indígenas, moradores de unidades de conservação, assentamentos rurais e comunidades quilombolas. Entre os exemplos citados de sistemas isolados sem serviço de 24 horas estão comunidades indígenas como Santa Rosa, Entroncamento, do Caju, Caraparu IV e Santa Creuza.

Alternativas para além do diesel

O estudo conclui que a transição energética na Amazônia exige políticas públicas específicas, distintas das adotadas em âmbito nacional. Os autores defendem investimentos em fontes renováveis locais, como energia solar fotovoltaica, biomassa e sistemas híbridos, aliados a melhorias na gestão, na coleta de dados e no planejamento territorial.

A pesquisa reforça que a eletricidade é uma condição necessária, mas não suficiente, para o desenvolvimento regional. Sem integração com políticas sociais, econômicas e de infraestrutura, a eletricidade tende a cumprir apenas um papel básico, insuficiente para transformar de forma estrutural as condições de vida da população amazônica.

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