Mudanças no clima ameaçam a economia brasileira e a segurança alimentar global

Acompanhe o que a ciência tem revelado sobre a Amazônia com a colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

Dias mais quentes e chuvas escassas trazem riscos à produção agrícola na Amazônia Oriental e no Cerrado adjacente.

Este conteúdo foi produzido pela colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

Em um futuro próximo, a Amazônia pode virar Savana (No Brasil, Cerrado). O “novo bioma” seria mais pobre em biodiversidade e teria menor reserva de carbono. Cientistas alertam para essa possibilidade à medida que o clima fica mais quente e seco. Aliado às mudanças do clima, há um cenário alarmante de mudanças no uso da terra que inclui: desmatamento e queimadas frequentes.

Considerando a Amazônia, maior floresta tropical do mundo, e o Cerrado, savana com a maior biodiversidade do planeta, a perda seria brutal, não é mesmo?

Enquanto as leis e órgãos ambientais são fragilizados, as florestas tropicais e o Cerrado, estão mais expostos e vulneráveis às mudanças do clima.

A maior área de contato entre floresta e savana nos trópicos encontra-se entre os biomas Amazônia Oriental e Cerrado (AOC). Na AOC, o regime de chuvas, o clima seco, as altas temperaturas e as queimadas causam impactos na biodiversidade local e na vida dos povos tradicionais. Além disso, podem prejudicar a produção de alimentos e a estabilidade do bioma.

A região do MATOPIBA – poderosa fronteira agrícola que contempla os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – está incluída na AOC e expandiu sobre áreas de vegetação de nativa. Ironicamente, a vegetação nativa é a reguladora do microclima local. Ou seja, sem floresta a área da lavoura fica mais seca e prejudica o crescimento das plantas como a soja e o milho, por exemplo.

Para conhecer mais os efeitos das mudanças do clima sobre a AOC, o cientista José Antônio Marengo e colaboradores analisaram 40 anos de dados climáticos e publicaram um estudo em janeiro de 2022 na importante revista científica Scientific Reports, da Nature. Os resultados, listados abaixo, são preocupantes e ameaçam a produção agrícola, estabilidade florestal e manutenção dos serviços ecossistêmicos na AOC:

Aumento da temperatura;
Sucessivos e frequentes dias secos;
Diminuição das chuvas;
Início tardio das chuvas e
Maiores riscos de incêndio entre as estações seca e chuvosa.

Expandir as commodities, especialmente soja e milho, em áreas com fortes tendências de seca pode reduzir a produtividade. Isso colocará em risco a segurança alimentar global e a economia brasileira. As consequências das mudanças climáticas e do desmatamento na Amazônia e no Cerrado podem acabar com a “explosão” do agronegócio.

Há soluções? Sim!

Adaptar cultivares ao novo clima pode aliviar alguns impactos. Entretanto, a manutenção da vegetação nativa é uma parte crítica da solução para estabilizar o clima regional. Ou seja, preservar a floresta é um investimento!

Em suma, “a agricultura que substitui florestas está precisando como nunca das chuvas geradas pelas florestas”. A fala de Paulo Brando, pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), nunca fez tanto sentido!

Referência

Marengo, J.A et al. Increased climate pressure on the agricultural frontier in the Eastern Amazonia–Cerrado transition zone. Scientific Reports, v. 12, n. 457, 2022.

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