O futuro da Amazônia: cenários de degradação florestal e emissões de CO₂

Acompanhe o que a ciência tem revelado sobre a Amazônia com a colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

As emissões líquidas de CO₂ de 2020 a 2050 são de 1,3 Gt CO₂ no cenário Sustentável e 24,07 Gt CO₂ no cenário Fragmentação do desmatamento

Este conteúdo foi produzido pela colunista Dra. Janaína Guidolini, idealizadora da Accessible Science.

Degradação florestal é uma perda parcial da floresta pela ação do ser humano ou por mudanças ambientais. De agosto de 2006 a julho de 2019 a degradação florestal da Amazônia foi de 194.058 km². Isso equivale a 4 vezes a área do estado do Rio de Janeiro.

Na Amazônia brasileira, a degradação florestal associa-se, principalmente, à incêndios florestais, extração seletiva de madeira, ou uma combinação de ambos. Isso leva a perda da biodiversidade, altera a estrutura da floresta e afeta o estoque de carbono. As consequências da degradação podem alcançar escala global, ou seja, ocasionar mudanças para o planeta, especialmente em relação ao clima. Assim, é urgente a compreensão sobre a degradação e seus motivadores.

Para isso, os cientistas podem utilizar modelos que ajudam a organizar o conhecimento e compreender as possíveis consequências econômicas e ambientais das mudanças de uso da terra. Além disso, possibilitam avaliar opções de políticas públicas.

Para conhecer os fatores sociais, econômicos e ambientais que influenciam a degradação na Amazônia e as consequências para o futuro, Talita Assis e colaboradores apresentaram uma abordagem inovadora para a criação de cenários de degradação florestal e emissões de CO₂. Os cientistas adaptaram e combinaram os modelos de mudança de uso do solo (LuccME), emissões de carbono (INPE-EM) e cenários de desmatamento disponíveis. Esse estudo foi publicado em 15 de junho de 2022 na revista científica Science Advances.

Causas da degradação na Amazônia

Segundo o estudo, nos anos em que a Amazônia passou por secas severas, a degradação estava relacionada principalmente ao desmatamento recente e a intensidade da seca em cada localidade.

Nos outros anos, a ocorrência de degradação foi relacionada principalmente a altos históricos de desmatamento e conexão com mercados, ou seja, a distância até o mercado consumidor mais próximo, considerando a rede de transporte disponível.

Em contrapartida, as Unidades de Conservação, Territórios Indígenas e o distanciamento de estradas e centros urbanos explicaram a resistência da floresta à degradação.

Cenários de degradação florestal e emissão de CO₂

Os autores trabalharam com dois cenários: (1) Sustentável e (2) Fragmentação.

O cenário Sustentável considerou que as condições políticas e institucionais favoreceriam a redução do desmatamento. Além disso, considerou a regeneração das áreas desmatadas, supondo um aumento da vegetação secundária para 35% até 2030.

Já o cenário de Fragmentação pressupôs o retorno de altas taxas de desmatamento e desrespeito ao Código Florestal. Sem incentivos para a regeneração, a vegetação secundária se nos índices atuais (em torno de 20%), com ciclos curtos de corte dessa vegetação, especialmente nas áreas de desmatamento consolidado.

Os resultados mostram repetidos eventos de degradação no norte do estado do Mato Grosso e no sudeste e nordeste do estado do Pará, sendo as áreas mais afetadas pela degradação nos dois cenários. Além disso, essas áreas também devem ser as mais afetadas pelo desmatamento até 2050. Diante disso, espera-se uma intensificação dos padrões já observados hoje, com grande parte da floresta exposta ao desmatamento ou degradação florestal.

Estimativas de emissões de CO₂

No período dos cenários (de 2020 a 2050), as emissões líquidas de CO₂ totalizaram 1,3 Gt CO₂ no cenário sustentável e 24,07 Gt CO₂ no cenário fragmentação. Para a estimativa das emissões de CO₂, os autores consideraram a degradação florestal e desmatamento, ganhos com recuperação de floresta degradada e crescimento de vegetação secundária e a perda de vegetação secundária.

Em suma, o artigo destaca a importância do desmatamento como impulsor da degradação da Amazônia. O Cenário Sustentável se aproxima da meta de desmatamento ilegal zero até 2030. No entanto, o crescimento do desmatamento registrado pelo sistema PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite) nos últimos anos (2019 a 2021) aproxima a realidade amazônica do cenário da Fragmentação.

Vale ressaltar, mais uma vez, que as Unidades de Conservação e Terras Indígenas são fundamentais para a preservação da Amazônia e funcionam como barreiras para o avanço da degradação.

Referência

ASSIS, Talita O. et al. Projections of future forest degradation and CO₂ emissions for the Brazilian Amazon. Science Advances, [S.L.], v. 8, n. 24, p. 1-10, 17 jun. 2022. American Association for the Advancement of Science (AAAS). http://dx.doi.org/10.1126/sciadv.abj3309.

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